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January 28, 2005

"Fahrenheit 451" - Recensão Crítica

Ficha Técnica

Título: “Fahrenheit 451”; Autor: Ray Bradbury; Tradução: Mário Henrique Leiria; Edição: vol. nº 66, Colecção Mil Folhas, Jornal Público, Editora Mediasat/Promoway Portugal Comércio de Produtos Multimédia Lda., Porto, 2003 (a partir da cedência de direitos das seguintes edições: Edição Original - Ray Bradbury, 1953; 1ª Edição em Português - Editora Livros do Brasil, 1956)


Ray Bradbury nasce em 1920, em Waukegan, Illinois (EUA). Em 1934, muda-se com a família para Los Angeles, para onde o pai, operário eléctrico, tinha partido em busca de trabalho. É em Los Angeles que, em 1939, funda uma pequena revista de ficção científica, juntamente com outros apaixonados do género. Começa a escrever contos, enviando-os para revistas especializadas que, frequentemente, os publicam. Em 1950, publica o seu primeiro volume de contos, “Crónicas Marcianas”, que tem um grande sucesso, depois suplantado por “Fahrenheit 451” (1953). A partir dos anos sessenta, começa a trabalhar intensamente como encenador cinematográfico, não abandonando nunca, contudo, a literatura. Entre as suas numerosas obras, destacam-se: “O Homem Ilustrado” (1951), “Os Frutos Dourados do Sol” (1953), “O País de Outubro” (1955), “A Cidade Fantástica” (1957), “As Máquinas da Alegria” (1964), “Muito Depois da Meia-Noite” (1976), “A Morte é um Acto Solitário” (1984), “Memórias do Crime” (1984) e “Cemitério de Lunáticos” (1990).

O cosmos literário de Ray Bradbury parece pautar-se pela criação e busca incessante de universos paralelos ou alternativos ao que conhecemos. A sua apetência pela ficção científica e o facto de a sua formação académica não ter ido além do ensino secundário parecem ter feito dele uma espécie de génio autodidacta. Bradbury passa a estudar sozinho, em casa ou em bibliotecas e adquire uma série de conhecimentos que lhe permitem reflectir sobre o que o rodeia, criando e imaginando sociedades e ambientes fantásticos. O mundo dos anos 50 tinha ainda muito frescos na memória os horrores da Segunda Guerra Mundial, do Holocausto e das duas bombas atómicas lançadas sobre o Japão. O avanço tecnológico era já uma realidade e a televisão tornava-se, com sucesso, um entretenimento muito popular. É neste contexto que surge “Fahrenheit 451”. Cinquenta anos depois, esta obra de Bradbury parece fazer ressoar nas nossas mentes uma espécie de profecia, prestes a ser cumprida.

“Fahrenheit 451” é uma novela de ficção científica, e pode ser incluída no rol de narrativas distópicas contemporâneas. A primeira metade do século XX é muito fértil neste tipo de narrativa, que se caracteriza, (no essencial e tal como o nome indica), pela descrição de um lugar ou situação imaginários em que tudo é negativo, por oposição ao conceito de utopia. Este último remete-nos para uma proposta ideal de organização da sociedade, em que, através de novas condições económicas, políticas e sociais, se pretende alcançar um estado de satisfação geral. Neste sentido, podemos dizer que a utopia é uma projecção futurista do antigo mito da “Idade de Ouro”, que teria existido num passado remoto.

Em termos gerais, as narrativas utópicas tratam de modo optimista os temas da condição humana, do progresso e do futuro da Humanidade. No entanto, e citando Robert Elliott, “A utopia de uns é o pesadelo de outros”, pelo que são precisamente as características da utopia que engendram o seu oposto - a distopia. Pretendendo regulamentar todos os aspectos da vida em sociedade, a utopia tem, por natureza, que excluir a excepção, o factor individual, porque isso perturba a ordem ideal. Uma sociedade perfeita pára no tempo e a evolução não existe. É assim que surgem as amargas narrativas distópicas, como um grito de alerta para os perigos de um futuro mundo opressor, desolador e sem esperança, em que o interesse particular é inevitavelmente esmagado pelo interesse colectivo e em que as massas devoram o indivíduo. Gostaria, no entanto, de frisar que “Fahrenheit 451” não é totalmente pessimista, uma vez que o autor teve o cuidado de, no final, deixar aberta uma janela de esperança para o futuro. Como exemplos de outras narrativas distópicas do século XX, temos: “Nós” (1922), de Eugene Zamyatin, “Admirável Mundo Novo” (1932), de Aldous Huxley e “1984” (1948), de George Orwell.

A obra abre com uma curta explicação sobre o seu título. Numa frase, o autor explica que “Fahrenheit 451” é “a “temperatura a que um livro se inflama e consome…”. A narrativa está dividida em três partes distintas, todas com título: 1 – “A fornalha e a salamandra”, seguido do subtítulo “Queimar era um prazer”, 2 – “A peneira e a areia”, 3 – “Ardente e claro”.

“Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar.” (p. 9) É assim que nos é apresentado Guy Montag, um bombeiro que, em vez de apagar fogos, os ateia sobre livros e que desempenha esse papel com bastante prazer. O governo proíbe a posse e a leitura de livros, e uma nova tecnologia permite a construção de casas ”ignífugas” (à prova de fogo) - daí a nova função atribuída aos bombeiros. A acção decorre num futuro indeterminado, numa cidade situada algures nos Estados Unidos da América.

Certa noite, ao regressar do trabalho, Montag conhece Clarisse Mclellan, uma adolescente que é sua vizinha. Clarisse abre os olhos de Montag para um mundo totalmente novo. A jovem pára para cheirar as folhas das árvores e fala realmente com as pessoas, gosta de passear a pé, de conversar, de sentir a chuva na cara, de olhar para a lua e de esfregar dentes-de-leão no queixo, de observar os pássaros e de coleccionar borboletas… Além de ser considerada como anormal e louca pela sociedade, é também considerada “anti-social” pelo governo e proíbem-na de frequentar a escola.

Montag fica intrigado com a personalidade da jovem, mas começa a gostar do seu olhar fresco e novo sobre o mundo e começa também a reexaminar a sua vida. Montag habitua-se à sua presença e às suas ideias até que um dia ela não aparece. Mais tarde, Montag descobre que ela tinha sido morta. Montag revolta-se e começa a questionar os fundamentos da sua sociedade. Quando lhe ordenam que queime uma casa cheia de livros, cuja proprietária se recusa a abandoná-la, Montag chega aos seus limites, como se estivesse à beira de um abismo. No dia seguinte acorda com febre e arrepios e decide não ir trabalhar. Beatty, o astuto capitão dos bombeiros, guardião convicto da nova ordem de coisas, vai visitá-lo. Parece saber, instintivamente, o que se passa na cabeça de Montag. O diálogo que ocorre entre os dois, nesta visita, é um dos mais interessantes da obra (a par dos diálogos com Faber), e é através das palavras de Beatty que obtemos o maior número de informações sobre a sociedade retratada.

Montag está desolado, devastado e emocionalmente transtornado. Tenta encontrar apoio, compreensão e compaixão junto da mulher, mas esta prefere passar o seu tempo junto da sua “família” virtual, uma versão futurista de televisão interactiva, com outras amigas, que também são “conformistas fanáticas”.

A história dá várias voltas surpreendentes. O leitor descobre que Montag tem estado a surripiar livros e a escondê-los de toda a gente, na sua própria casa, dentro de um ventilador. Montag encontra-se com Faber, um professor de literatura reformado e procura uma forma de começar a espalhar livros – dá-lhe uma edição da bíblia e algumas centenas de dólares, para que um amigo do professor, um antigo impressor, possa publicar várias cópias da mesma. Montag vê-se forçado a confrontar o seu capitão, que tenta confundi-lo e pô-lo de novo do lado dos bombeiros. Montag percebe que Beatty sabe dos livros e vê-se forçado a fazer decisões sobre a sua vida, à medida que esta se desmorona, estrondosamente, à sua volta. Tudo isto tem como pano de fundo a ameaça de uma guerra nuclear iminente.

“Fahrenheit 451” aborda de forma notável o potencial criador e ao mesmo tempo destruidor do homem para com o mundo que o rodeia e para com o seu semelhante. É sobretudo interessante acompanhar o percurso da personagem principal, Guy Montag, que inicia a novela como mais uma peça da engrenagem, começa a questionar esse papel ao conhecer Clarisse e, por fim, já plenamente convicto e com a ajuda de Faber, salta da engrenagem como uma mola desgovernada, voltando as costas ao mundo ao qual parecia estar conformado.

O cenário aqui desenhado é um dos mais inquietantes jamais concebidos pela ficção científica – sem seres alienígenas, naves espaciais ou armas mirabolantes, aquele mundo lívido e opressivo que deveria garantir o bem-estar universal assalta-nos como se pudesse, um dia destes, olhar para nós e envolver-nos na sua espiral de controlo, perseguição e terror.

O controlo é exercido por um governo que promove o entretenimento como forma de vida, anulando todo o apetite do espírito. As pessoas não têm tempo para pensar, não conversam umas com as outras nem contactam com a natureza. Em vez disso, passam horas em frente à televisão, cuja programação, de tipo interactivo, é projectada nas paredes das casas; têm constantemente introduzida nos ouvidos uma espécie de micro rádios e conduzem carros a altas velocidades, nas auto-estradas, para descontracção.

É também promovido o desporto e todo o tipo de competições; proliferam as fitas desenhadas, os filmes, os comic-books, as revistas eróticas a três dimensões, os jornais corporativos. Os livros começam a ser resumidos gradualmente, até não restarem mais do que um punhado de linhas – desta forma nivelam-se os conteúdos e garante-se uma igualdade artificial, em que nenhuma minoria sinta os seus interesses ameaçados.

As salas de espectáculos apresentam somente shows de palhaços; os edifícios são guarnecidos com paredes de vidro e reflectem cores atractivas; a arte é toda abstraccionista, os museus deixam de apresentar qualquer tipo de obra figurativa; nos cafés, existem joke-boxes, uma versão actualizada das antigas juke-boxes - em vez de música, passam repetidamente anedotas e histórias supostamente divertidas.

Existem parques de atracções, onde as diversões consistem em empurrar pessoas, partir vidros na barraca no “Quebra Vidros”, virar carros no “Demolicar”, manobrando uma gigantesca bola de aço ou ainda conduzir automóveis a altas velocidades com o objectivo de tentar atropelar galinhas.

Nas escolas, os alunos são submetidos a várias horas de programas televisivos “educativos”, intercalados com aulas de desporto e transcrições de história ou pintura; as pessoas tomam constantemente doses excessivas de comprimidos para dormir e há relatos de várias tentativas de suicídio. Vive-se no imediato e as pessoas agarram-se aos “clubes, às reuniões, aos acrobatas, aos prestidigitadores, quebra-cabeças, carros a reacção, motogiroplanos, ao sexo e à heroína”, em suma, a “tudo o que não obrigue senão a reflexos automáticos” (p. 64).

Bombardeadas com tanta informação e tanta actividade inútil, mas que dão a falsa sensação de “movimento”, as pessoas, na realidade “apenas se arrastam”. Foram moldadas ao sistema, estão conformadas, não questionam nada, pois têm a falsa sensação de uma vida preenchida e feliz. Neste cenário, os livros deixaram espontaneamente de ter leitores – para quê atormentar o espírito com dúvidas existenciais, com assuntos filosóficos, com estudos sociológicos, com poesia melancólica, com romances cheios de personagens imaginárias que não existem na realidade? Os livros são vistos com fonte de sofrimento, pois obrigam a pensar e estão cheios de contradições - factos insuportáveis para um espírito habituado à mínima actividade autónoma possível, embriagado, numa espécie de hipnose colectiva. A personagem de Mildred, a mulher de Montag, e as suas amigas, encarnam na perfeição este cidadão-tipo, célula da grande massa anónima, que não questiona, não protesta, pelo contrário, está “feliz” com o actual estado de coisas.

A dada altura, é institucionalizada a proibição de possuir ou de ler livros. Entra em acção a perseguição da “Vigília do Fogo”, cuja missão é “proteger o optimismo do nosso mundo actual.” (p. 65) Uma das ideias principais que a obra destaca é a da desintegração cultural da sociedade, o crescente desinteresse na ciência, na literatura e na filosofia – a combustão dos livros fica como uma metáfora poderosíssima desta degradação - “O fogo é brilhante, o fogo é limpo.” (p. 63) O fogo simboliza assim a morte da cultura.

O terror acaba por nascer nos corações das pessoas que conseguem conservar a sua lucidez, neste cenário de histeria colectiva – vislumbramos o terror de Clarisse quando descreve as actividades abomináveis dos seus concidadãos, vemos o terror nascer dentro de Montag, quando este decide não fazer mais parte da engrenagem, assistimos também ao terror estupidamente calmo que emana da personagem Helen – a mulher que se faz imolar pelo fogo, dentro da sua própria casa repleta de livros.

Quanto à lucidez, não queria deixar de dizer algumas palavras breves sobre duas personagens totalmente distintas: Beatty e Faber. Beatty, o capitão dos bombeiros, demonstra uma cultura literária muito acima da média – o seu posicionamento ao lado do sistema parece ser uma escolha convicta e lúcida, como alguém que professa, de coração, uma fé cruel. Quanto a Faber, o professor reformado, a sua lucidez leva-o a rejeitar o plano mirabolante de Montag, de introduzir à socapa livros nas casas dos bombeiros, para que o sistema se devore a si próprio. Faber conhece bem os seus limites das suas capacidades contra um inimigo implacável e tenta mostrar a Montag que os livros não têm nada de mágico e que o que ele procura, pode encontrá-lo dentro de si.

O estilo de Ray Bradbury é inconfundível – recheia os seus relatos de pormenores visuais, diria mesmo, cinematográficos. Desde as insígnias utilizadas pelos bombeiros, às características físicas destes, passando pelas descrições vívidas das actividades dos cidadãos, a criação de ambientes fantásticos e artefactos engenhosos, a tecnologia mirabolante, cheia de detalhes curiosos – nada é deixado ao acaso. A narrativa deixa-nos sempre em suspenso, sem sabermos ao certo qual o caminho que Montag escolherá trilhar. No geral, a linguagem é bastante acessível, com alguns elementos exóticos resultantes da introdução de neologismos associados à tecnologia.

Se o propósito do autor ao escrever esta obra era o de propor uma reflexão sobre o mundo em que vivia e alertar as gerações vindouras para os potenciais perigos de pessoas menos bem intencionadas subirem ao poder, manipulando os media e controlando as massas, penso que este propósito foi magistralmente conseguido. É impossível lermos “Fahrenheit 451” e não traçarmos paralelos com o mundo em que vivemos hoje. Confronte-se ainda a escolha do título do célebre documentário de Michael Moore sobre o 11 de Setembro com o título desta obra.

Quanto à profética morte da cultura, materializada no desaparecimento dos livros, penso que é exagerada. Embora existam, especialmente desde o aparecimento da Internet, várias correntes que, qual arautos do mundo moderno, anunciam que os livros estão irremediavelmente condenados à extinção, o que é certo é que os novos meios tecnológicos têm contribuído para grandes avanços da liberdade de expressão, da participação do indivíduo no espaço público e da divulgação e transmissão de conhecimentos. Basta uma pequena pesquisa na Internet para ver a quantidade de sites com qualidade, dedicados à literatura ou aos movimentos de cidadania, só para citar dois exemplos.

Uma palavra final para a janela de esperança que o autor abre no fim da obra, e faço minhas as palavras das personagens de Bradbury: que a cada dia tomemos tempo para nos olharmos ao espelho, demoradamente, e saibamos quem somos e o que estamos a fazer do nosso mundo. Que a Humanidade possa, qual Fénix renascida das cinzas, inaugurar uma Nova Era em que a Paz e o Conhecimento nos guiem a todos. Um desejo Utópico? Talvez, mas “Um mapa do mundo em que não aparece o país Utopia não merece ser guardado.” (Oscar Wilde)

Cláudia Silva

Publicado por sapaso às January 28, 2005 10:40 AM

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