« Titanic | Entrada | Escola Superior de Educação recebe: Rancho Folclórico da 3º idade – uma iniciativa de louvar »
December 05, 2004
"Preisner: música, cinema e tubos de escape"
É com prazer que inicio a minha participação neste espaço, para vos falar da oitava edição dos Encontros de Cinema, este ano com o tema “Ouvir cinema – a banda dos sons”.
Em representação do grupo “Iluminadas”, assisti à sessão das 22 h que teve lugar no Teatro Lethes (uma pérola arquitectónica da nossa cidade, diga-se de passagem), na passada sexta-feira, dia 3 de Dezembro. Esta sessão contou com a presença do compositor polaco Zbigniew Preisner, galardoado com vários prémios internacionais, que ganhou notoriedade com os trabalhos desenvolvidos para cinema com o realizador, também polaco, Krzysztof Kieslowski.
Antes de ir para a sessão, visitei o site oficial de Preisner (www.preisner.com) e achei muito interessantes as palavras com que o compositor nos saúda:
“ I DON’T THINK OF MUSIC IN TERMS OF DIFFERENT STYLES:
THIS IS MUSIC FOR A MOVIE, THIS IS MUSIC FOR A CONCERT.
FOR ME, THERE EXISTS ONLY ONE MUSIC: GOOD MUSIC.
I ALWAYS SAY THAT I COMPOSE MUSIC WHICH I PERSONALLY
WOULD LIKE TO LISTEN TO IF I HADN’T WRITTEN IT “
Alguns segundos depois abre-se a página principal e podemos ouvir excertos da sua música, que descrevo como: ao mesmo tempo densa, profunda e leve, ao mesmo tempo melancólica, triste e alegre – numa palavra: humana.
Confesso que, tirando Ryuichi Sakamoto e Michael Nyman (talvez pela grande projecção mediática que estes nomes têm), não conheço nem me lembro de ter especial curiosidade em conhecer quem está por detrás daquela banda sonora daquele filme, o que mostra como muitas vezes o trabalho dos compositores é esquecido, muitas vezes injustamente. E também muitas vezes, como Preisner fez questão de referir repetidamente, o seu trabalho é esquecido, desprezado e menosprezado pelos próprios realizadores e argumentistas, que se limitam a encomendar “uma música bonita”.
Já “conhecia” algumas das bandas sonoras feitas por Preisner para Kieslowski, nomeadamente para a famosa trilogia, uma vez que ao ver os filmes tive oportunidade de ouvir as suas composições. Gostei principalmente do “Azul”, onde Juliette Binoche tem um desempenho magnífico e onde a música de Preisner é, sem dúvida, personagem principal e activa no enredo, diria mesmo é o leitmotiv do filme, uma vez que tudo gira em torno de um compositor que falece num trágico acidente de automóvel, antes de terminar o seu último projecto: o hino da Europa. Binoche faz o papel de viúva que se agarra ao plano de terminar o projecto do falecido marido como a uma tábua de salvação – é ao mesmo tempo uma forma de perpetuar a sua memória e de ganhar forças para superar a sua perda.
A música de Preisner está sempre presente – é impossível dissociar este filme específico da sua banda sonora. No entanto, enquanto o nome de Kieslowski passou, para mim, a ser facilmente reconhecível, desconhecia por completo o nome do compositor. Isto para introduzir muito do que foi dito naquela noite sobre o papel da música e do compositor em cinema.
Uma das expressões mais repetidas por Preisner, para definir esta relação som/imagem foi “criação”, criticando ferozmente os produtos tipicamente comerciais que, na sua opinião são todos iguais. Exemplificou mesmo com dois dos últimos filmes que viu em DVD (não gosta de ir a salas de cinema), “Day after tomorrow” e “Troy” – disse que se fosse possível trocar as bandas sonoras, não se passaria nada, pois ninguém notaria, exactamente por não haver diferenças.
Criticou também de forma veemente a vertente económica da grande indústria cinematográfica, exemplificando com os números astronómicos que são pagos aos actores célebres. Ora, se os produtores pagando milhões ao elenco e sem investimentos significativos em música, ainda conseguem ter lucros estrondosos, recuperando em poucas semanas o que investiram, para que é que se vão preocupar com a música? – desde que seja bonita ou agradável, não precisa de ser brilhante!
Para Preisner o importante é criar algo novo, não a partir das imagens dos filmes, mas do que sente ao vê-las, projectando e exteriorizando para a música a dinâmica interior resultante da relação por ele criada com aquele filme, aquela história, aquelas personagens – no fundo, explicou Preisner, o que ele procura no seu trabalho é dar uma alma ao filme.
Pode-se dizer que a música de Preisner se insere no campo da música erudita, fugindo dos cânones normais da música que se costuma fazer para o cinema das grandes indústrias. Algumas das palavras mais usadas pela professora Anabela Moutinho para a descrever foram: nostalgia, lirismo e silêncio. A partir de alguns excertos que foram mostrados na sessão pudemos confirmar estas ideias, especialmente o contraponto entre música e silêncio, que na minha opinião, Preisner usa magistralmente para exprimir sentimentos e emoções, para caracterizar personagens e situações, dando-lhes uma profundidade que doutra forma não seria possível alcançar.
Preisner fez uma analogia bastante elucidativa: tal como o realizador escolhe os actores para determinados papéis e vai alterando essa escolha, caso ache necessário e adequado, o compositor faz o mesmo com os músicos que escolhe para tocar a sua música.
Frisou ainda que quando compõe música para cinema, não compõe para a orquestra, mas sim para os solistas. A orquestra não é o mais importante, (é uma estrutura acessória tal como por exemplo, os figurantes), mas sim o solista que vai tocar esta melodia nesta cena, com este instrumento, pois é isso que vai transmitir individualidade, introspecção, concentrando a atenção num aspecto sonoro minimalista.
A professora Ana Soares, a dada altura, tentou perceber melhor como é que se passava, em concreto, o processo criativo musical, e qual o papel de Preisner ao trabalhar com os realizadores.
Em resposta, Preisner fez duas alegorias muito sui generis, primeiro comparando um filme a um carro. Um carro, para trabalhar, disse, precisa de um condutor, de um motor e de um tubo de escape. O papel da música num filme, na sua opinião, é semelhante à deste último elemento, o tubo de escape. (Espanto geral…) Se estiver afinado, não damos por barulho nenhum e tudo corre às mil maravilhas. Se, pelo contrário, fizer muito barulho, é incómodo – mas o que é certo é que o carro anda na mesma! (Gargalhada geral…) Em seguida disse que se sente como um tocador de realejo, exemplificando gestualmente como se estivesse a dar à manivela. (Mesmo se a manivela encravar, o filme continua a rodar.)
Penso que com estas imagens, carregadas de ironia, Preisner quis dizer que a música é muitas vezes esquecida ou relegada para segundo plano porque a audição não é, de facto, o sentido mais solicitado em cinema. No entanto, embora passe despercebida, a música tem um papel muito importante e decisivo. Papel este que Preisner parece ingenuamente querer ilustrar como inevitavelmente secundário, ao compará-lo a um tubo de escape, mas que, na verdade, defende como uma bandeira.
O compositor polaco, no geral, pareceu-me um pouco amargo e pessimista, desencantado com o actual estado de coisas no cinema e na música, saudosista até dos velhos tempos em que trabalhou com o já falecido Kieslowski.
A professora Anabela Moutinho, apercebendo-se desta postura, colocou-lhe uma questão curiosa: se tudo tinha dado tão certo com Kieslowski, nomeadamente a cumplicidade genial visível entre o trabalho de ambos, porque é que isso nunca mais voltou a acontecer?
A resposta de Preisner é também curiosa – “Nada acontece duas vezes.”
Gostei bastante de assistir a esta sessão, embora considere que tenha sido um pouco confuso e entediante o facto de Preisner falar ora em polaco ora em inglês, sendo que as intervenções em polaco eram traduzidas para português (por uma tradutora convidada) e ainda para inglês (de forma brilhante) pela professora Ana Soares. Compreendo a necessidade de tanta tradução, uma vez que estavam presentes convidados estrangeiros, que de outra forma não conseguiriam acompanhar a sessão, mas as conversas acabaram inevitavelmente por perder ritmo e por vezes, mesmo alguma coerência. A professora Anabela Moutinho também não me pareceu estar nos seus melhores dias, provavelmente a acusar cansaço depois de um dia inteiro a falar e a receber os convidados.
Porém, o balanço final desta sessão parece-me ser bastante positivo. Não me imagino a ver outra vez um filme sem prestar a atenção que a música merece (se não toda a música – a “boa música”, para utilizar as palavras de Preisner), sobretudo sem prestar mais atenção ao som, em geral. Espero também ter dado um pequeno contributo para que quem não tenha estado presente tenha ficado com uma ideia do que lá se passou.
Cláudia Silva
Publicado por sapaso às December 5, 2004 08:01 PM
Comentários
Na realidade, muitas vezes não tomamos muita atenção à banda sonora de determinado filme. Eu principalmente só dou importância, quando sejam musicas que já conheça, ou que reconheça como sendo de bandas musicais que eu considere boas. No entanto há aqueles filmes que são indissociáveis da sua banda sonora original. E "Azul" é indiscutivelmente um desses casos. Que grande filme. Aliás, que grande trilogia. Vou também tentar dar mais importância às bandas sonoras. Prometo.
Publicado por: Flash em December 5, 2004 09:48 PM
Gostei bastante do 'post': do título, bem como da descrição acompanhada de comentários pessoais.
Sublinho o ter-se preparado para ouvir (melhor) Preisner.
Publicado por: Luís Pereira em December 6, 2004 11:17 AM
Uma boa surpresa, esta sua brilhante peça! E sim, tem razão, eu não estava propriamente nos meus dias, hiper-cansada, com imensos problemas de voz (além da rouquidão, doía-me brutalmente)e, confesso também, o Preisner estragou-me tudo o que eu tinha imaginado, com aquela sua postura - que aliás, "irritou" bastante mais gente na assistência, como se notou nalgumas intervenções, inclusive a da Drª Ana Soares -, de que «eu não faço nada tão importante assim», ou «eu faço música porque não sei fazer mais nada», ou «nada de especial, Kieslowski e eu era eu a fazer o que ele queria e pouco mais». A melhor maneira de o calar, mesmo, foi ler-lhe o extracto das palavras do próprio Kieslowski no final... Foi a minha grande "vitória": Preisner ficou comovido. Pois. Super-contente fico, é claro, que este congresso - e esta sua específica sessão - tenha contribuído para que uma pessoa, pelo menos uma, passe agora a dar mais atenção à linguagem dos sons quando da linguagem das imagens com sons em movimento falamos. Obrigada, e, mais uma vez, parabéns, Cláudia (que eu não sei quem é...)
Publicado por: anabela moutinho em December 16, 2004 08:24 PM
Caríssima professora Anabela Moutinho, antes de mais quero agradecer as suas palavras acerca do meu artigo. Vindo de quem vem (uma comunicadora nata - hábil e genial) até corei! (no bom sentido!...) Se, nas suas palavras, a minha peça é brilhante é só porque todos os intervenientes da sessão o foram. Deixe-me também dizer-lhe que o seu comentário neste blog também foi, para mim, uma boa surpresa. Quanto ao facto de não me conhecer - olhe, sou sócia do Cineclube desde 1993, embora não pague as quotas há um bom par de anos (mea culpa!), pelo que já nos cruzámos muitas vezes. O ano passado encontrei-a no complexo pedagógico da Penha e perguntei-lhe se o CCF tinha o "Blow Up" do Antonioni, para um trabalho sobre cinema. Enfim, um dia destes havemos de nos encontrar mais uma vez, pois Faro é uma cidade pequena. Obrigado pelo seu post e, sobretudo, obrigado por ser quem é e pelos magníficos filmes que tive oportunidade de ver (e ouvir, já agora) através do CCF. Houve alguns que marcaram mesmo a minha existência - "Manual de instruções para crimes banais", "Blow up", "Belle de Jour", "Um anjo à minha mesa", "O piano", "As pessoas normais não têm nada de expecial", a já citada triologia de Kiewslowski... enfim, a lista nunca mais acabaria. E depois - Emir Kusturica - nunca hei-de esquecer o dia em que Kusturica pisou o palco do IPJ! Memorável! O vosso trabalho tem sido verdadeiramente excepcional, do qual esta edição dos Encontros de Cinema foi mais um bom exemplo. Parabéns CCF, parabéns cara Anabela (que eu sei muito bem quem é...) Até um dia destes!
Publicado por: Cláudia Silva em January 28, 2005 06:36 PM
